“O Senhor é minha luz e minha salvação.”
No Evangelho de Mateus (Mateus 9:27-31), Jesus devolve a visão a um cego. De certa forma, todos nós somos cegos. Temos pontos cegos. Precisamos da luz da fé. Precisamos da salvação.
Um empresário me falou certa vez sobre a importância de ler a Trilogia Espacial, de C.S. Lewis. Nela, ele descreve um planeta onde as pessoas têm uma visão e uma percepção muito mais claras e profundas das realidades espirituais. Nós, aqui na Terra, por outro lado, na maioria das vezes não enxergamos essas realidades e, em muitos casos, negamos totalmente a existência delas. Precisamos do dom da visão espiritual que Deus nos dá.
Quantas vezes já ouvimos as pessoas dizerem que não tiram nada da missa? Minha resposta é: “Mas o que você traz para a missa?” Somos chamados a levar nosso trabalho e, no fim das contas, a nós mesmos para a missa, para adorar a Deus por meio de Cristo, com Cristo e em Cristo!
Você é a única pessoa que pode se entregar a Deus. Adoração significa me entregar a Deus todos os dias. “Mas eu me dedico ao meu trabalho todos os dias!” Isso é ótimo, mas como você oferece seu trabalho a Deus?
Gosto de perguntar aos jovens: “Quais são os únicos elementos essenciais sem os quais não posso celebrar a missa? O pão e o vinho! O resto a gente dá um jeito. Mas sem o pão e o vinho que vocês precisam trazer, não temos missa.”.
De onde vêm o pão e o vinho? “Fruto da terra e obra das mãos humanas”; ‘Fruto da videira e obra das mãos humanas”. Esses são dons de Deus que foram aperfeiçoados e desenvolvidos mais plenamente pelo trabalho do homem.
O Catecismo nos lembra que Deus não criou o mundo em um estado acabado e perfeito. A criação foi deliberadamente deixada inacabada para que o homem pudesse se tornar um parceiro de Deus no desenvolvimento dessa criação. É o trabalho do homem que aperfeiçoa os dons de Deus e aperfeiçoa o mundo. Na verdade, São João Paulo II destaca que o trabalho do homem também ajuda o próprio homem a se aperfeiçoar.
O Concílio Vaticano II trouxe de volta uma parte da liturgia que tinha sido perdida: a procissão do Ofertório. Na Igreja primitiva, os fiéis traziam todo tipo de produtos agrícolas e animais durante o Ofertório. Como isso ficava meio bagunçado, a Igreja logo simplificou a procissão para incluir só os itens essenciais e simbólicos (usados por Jesus): pão e vinho. Mais tarde, por uma questão de praticidade, a procissão foi totalmente eliminada, de modo que os acólitos passaram a apresentar as oferendas de pão e vinho ao celebrante em nome do povo. E, na procissão do ofertório da missa, revivemos de uma forma mais clara e marcante a nossa entrega a Deus.
O documento do Concílio Vaticano II sobre a Liturgia, “Sacrosanctum Concilium”, fala várias vezes sobre facilitar e incentivar a “participação” dos leigos na missa. Participação não é só fazer parte do coro, ser recepcionista, coroinha ou leitor. Trata-se de viver de forma mais consciente e profunda esse momento do ofertório. Podemos e devemos nos oferecer a Deus, apresentando nossas orações, alegrias e sofrimentos, mas principalmente nosso trabalho. No domingo, podemos trazer todos os nossos esforços, sangue, suor e lágrimas derramados no trabalho durante a semana que passou. Mais uma vez, só a gente pode oferecer esse trabalho a Deus. Ao fazer isso, oferecemos a nós mesmos — o único presente que Deus mais deseja de nós!
E o que acontece com essas oferendas colocadas no altar? Elas logo são consagradas e transformadas no Corpo e no Sangue de Jesus! Nossas oferendas ganham um novo valor. E são apresentadas ao Pai pelo Filho. Jesus é ao mesmo tempo o sacerdote e a oferta (vítima). Assim, o Pai só pode acolher e valorizar essa oferta vinda das mãos e na forma do seu Único Filho Amado! Então, meu trabalho e até mesmo eu mesmo, de alguma forma, chegamos ao céu! O valor deles aumentou imensamente; eles entraram no reino da eternidade!
Como é importante pra gente viver esse mistério! O mistério é, afinal, a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus. Eu, que não estava fisicamente presente há 2.000 anos, posso, graças à Missa, estar presente agora, entrar nesse mistério, me oferecer e me unir a Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote, na oferta de sua vida ao Pai! Que honra! Que maravilha! Eu me torno, de forma consciente, livre e verdadeira, parte desse grande ato de adoração, desse sacrifício inestimável e dessa oração tão poderosa!
Se é isso mesmo que acontece na nossa adoração, então como devo aprender a encarar e viver meu trabalho diário? Minha atitude, meus esforços generosos, minha atenção aos detalhes, meu uso honesto do tempo, minha intencionalidade e meu espírito de excelência… de repente se tornam inexprimivelmente importantes! Durante toda a semana, tenho a oportunidade de preparar e embalar minha oferta a Deus — em todas as minhas orações, alegrias, sofrimentos e, principalmente, no meu TRABALHO!
Vamos pedir essa luz da Fé para enxergar o verdadeiro sentido da nossa adoração, os elementos bem pessoais da nossa oferta e o desejo mais profundo de Deus Pai e Deus Filho, e claro, de Deus Espírito Santo, que está trabalhando ativamente para realizar esse milagre. Torna-te essa dádiva! Em Cristo!